quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sobre o meu nome.

.

Talvez poucos aqui saibam, mas meu nome completo é Luciana Riça Mourão Borges. O Mourão do meu nome vem do meu avô materno, que era filho de libaneses refugiados no Brasil. Eu, igual a todos os brasileiros da minha geração (pelo menos), sou filha-neta-bisneta-sobrinha-prima-parente de índio, preto, europeu, oriental. Mas bem, aquela imagem do menininho sírio chocou a todos. E também me chocou. Mas me choca todos os dias os vários migrantes refugiados no Brasil, ou os vários migrantes intrarregiões refugiados por quaisquer motivos em uma região do próprio país que não é a sua de nascença. Eu sou filha de migrante: meu pai saiu de Goiânia para desbravar o Novo Eldorado amazônico na década de 1980. Meus bisavós, pais do meu avô materno, eram migrantes libaneses refugiados no Brasil por causa dos conflitos da segunda guerra mundial. O pai da minha avó materna era português. Veio desbravar a Amazônia. Os pais do meu pai também são migrantes: Fizeram o clássico trajeto do campo para a cidade nos idos de Goiás. E eu, virei migrante quase que de nascença: Foi em Goiânia que eu vi pela primeira vez a luz desse mundo. Cresci em Rondônia, terra da minha mãe, minha avó, meus irmãos, meus tios. Terra adotada pelo meu pai. Aos 22 anos me mudei para São Paulo, aonde vivo há seis anos. E agora estou aqui, em terras europeias, tentando me reconhecer no meio desse mundo. Vim parar na França, um dos maiores países colonizadores, etnocidas e imperialistas, opressores das nações pobres. Vim parar aqui no momento em que as migrações de refugiados está em todas as capas dos maiores jornais do mundo. Vim parar em um bairro aonde há gente migrante de todo o canto desse mesmo mundo. Inclusive libaneses. E sírios. Essa gente quer ir para a Europa. Mas no Brasil há tantos e tantos deles, há muito tempo. Pois que entre tantas andanças por esse mundo, faço, nesse momento de autorreconhecimento, a alusão à minha parte que se identifica com esse povo que está em busca também do seu lugar ao Sol. Muito prazer, agora o meu Mourão está com essa gente.

.

Carinho de vó.

.

Vó, carinho de vó. Ela sempre cuidou de mim como a netinha-filha dela. Me ensinou a cozinhar, a costurar, a fazer crochê. Me ensinou a tirar as manchas que ficam debaixo da manga da blusa. Me ensinou a cuidar da casa... Minha maior alegria do ano era quando chegavam as férias e nós pegávamos o carro para cairmos na estrada. Íamos para lá. A pamonhada era a mais esperada, e sempre tinha que ter o milho refogado - minha comida predileta. No almoço, era a galinhada. Mas o que reunia todos os parentes mesmo eram os aniversários e a festa da pamonha. E haja pamonha. Sempre eu deitava no colo dela à noite no sofá. Quando eu era "mais pequena", como ela dizia, eu dormia no meio dela e do meu avô. Eu era o xodó dela. E ela o meu. Mas o Alzheimer, esse alemão cruel, fez com que ela se esquecesse de mim. Quer dizer, não em seu coração... Porque sempre quando ela me reencontrava, falava o mesmo "ôôô fia....", de quando eu era "mais pequena". Eu adorava ouvir aquela voz baixinha contando histórias da vida dela, dos irmãos, dos seus pais, das suas dezenas de sobrinhos. A "tia" Dina era muito amada, muito. Por todos!!! Ah, eu também não posso deixar de me lembrar das caminhadas de fim de tarde na praça... Puxa vida... Os primeiros dois meses da minha vida foram na casa dela, com ela cuidando de mim e ajudando a minha mãezinha, de primeira viagem... Quando eu nasci, minha mãe tinha a mesma idade que tenho hoje... E foi essa avó que nos acolheu em sua casa... Depois da minha mãe, ela é a minha segunda referência materna... Ela é. Ela pode ter se esquecido de mim, mas nunca irei me esquecer dela. Vó, perdão por ter ficado tão longe por tanto tempo.... Eu desejo no meu coração que a senhora descanse, e que encontre no universo o caminho do retorno. Eu desejo no meu coração que a senhora nunca fique longe da gente. Eu te amo!

.

Chegando na Parrí.

.

Sobrevivi à primeira semana. Ja sei dizer "uêi" ao invés do mecânico "uí", "ôrrvuá" ao invés do "aôrrevoá", já falo "marci" e "bonjur" para os vizinhos no elevador, e também consegui fazer compras na feira. Inclusive a feira talvez seja um dos melhores momentos de estudo da cultura local. O bairro aonde estou morando é composto por migrantes de diversos países africanos colonizados pela França, países do sul e do leste europeu. Muita gente do oriente médio também. Já sonho, penso e formulo frases na minha cabeça em francês. Foi uma semana "batalhosa" (acabei de inventar essa palavra). Mas sobrevivi. Ainda estou na comida oriental e árabe, por enquanto. E aos pouquinhos vou me adaptando, aprendendo e vendo a cada dia que eu posso ir um pouco mais adiante. Eu sou e serei para sempre grata a todas as forças do universo por terem colocado a Telma Costa Rodrigues no meu caminho. Você é um anjo cheio de alegria que está colorindo os dias cinzas e frios de Paris. Gratidão, muita gratidão. Por enquanto, eh isso. :) A saudade está demais, mas logo vai passar e voltarei com muitas histórias, vivências, experiências e relatos para contar.

.

Ainda sobre o tempo.

.

Ainda sobre o tempo, esse troço é um negócio muito louco... É o que tenho para agora... O tempo é uma viagem. É um sonhar acordado... Um dormir e pronto, acordei de novo. E é assim que vai ser: um ano em um dia. Um dia que vai durar um ano. Uma vida inteira vai ser vivida, e, de repente, ja serão três anos que esse um ano existiu. Já tem seis meses que voltei do Rio. Já tem um ano que fui para lá. Já tem três anos que meu irmão embarcava, igual como farei daqui a algumas horas. Três anos tem que me tornei "mestra em ciências". Seis anos tem que parti da minha terra, e, de repente, só tenho mais dois anos para encerrar essa missão a qual me lancei aqui. E daqui a pouco... Bom.. Daqui a pouco eu vou estar lembrando disso tudo de novo, somando as datas seguintes que se passaram há tantos outros anos. E é assim que me despeço dos meus amigos e parentes, os que vi e que não vi, os que não verei mais... Me despeço desculpando-me por não avisar que já vou hoje, por não ter sido capaz de responder a todas as mensagens em tempo, deixar só um "visualizado" porque eu estava numa maratona alucinada para que o dia de hoje se concretizasse... Eu peço desculpas pela minha ausência e por não conseguir abraçar todos. Meu coração está bem apertado. Quem me conhece de perto sabe o quanto priorizar a vida acadêmica pesa para mim em relação à minha vida afetiva. Mas também sabemos que todos os esforços que empreendemos enquanto somos jovens consiste num ideal de vida muito maior. Eu vou, vou morrer de saudade... Vou chorar muitas vezes. Mas também vou me sentir feliz, orgulhosa de mim e do caminho que escolhi. Vou aprender muito e amadurecer um pouquinho mais essa menina cheia de sonhos e bem medrosa do mundo que quer tornar-se uma mulher grandiosa. Eu vou lá, mas eu já volto. Vai passar rápido. Até mesmo para quem espera. Pai, mãe, irmão, amor, os parente e os amigue tudo: Obrigada e péra que eu já chego. Péra dois minutos. Já já eu venho.

.

Sobre o cotidiano.

.

A batalha é cotidiana. A vida é breve mas a existência é infinita. Para o amor, para o ser, para o universo... A vida é muito, é mais, mas voa. Por isso é preciso buscar o essencial... Que aos olhos é invisível. Por isso só se vive plenamente se esses forem os olhos do coração. Este é o mais importante...

.

Sobre o sofrimento.

.

Dos quatro sofrimentos (nascimento, velhice, doença e morte), conforme a doutrina budista, que assolam a existência humana, a doença talvez, talvez, seja a mais cruel... Talvez, porém, não haja hierarquia, talvez o peso seja diferenciado e respectivo para cada situação vivida. Mas nesse momento, a doença pesa de um modo cruel. É doloroso tanto com a gente, quanto com quem a gente ama e não quer perder, assim é dolorosa a enfermidade do corpo. Mas como bem disse Nitiren Daishonin, o carma poderá ser transformado se não nessa, na próxima existência sem dúvida nenhuma. Basta compreender que a natureza do ser humano consiste na transformação desses sofrimentos com base na fé.

.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Dia dx geógrafx

.

Há dez anos eu escolhi a Geografia como aquele caminho pelo qual eu seguiria por toda a vida. Caminho que eu só descobri como se andaria nele andando nele. Há dez anos eu passei a entender que sensibilidade com o mundo no qual estamos inseridos é muito mais importante do que meros "objetos de estudo". Foi esse campo do conhecimento que me trouxe tantas lentes de observação do mundo, e que me permite até hoje me enxergar como ser humano. A Geografia é linda. Existe amor na Geografia. E eu descobri que posso ser muito mais do que eu achava que podia, pois todos os limites da minha existência puderam ser rompidos até agora justamente porque decidi sair da minha zona de conforto e me lançar para o mundo. Tenho gratidão a tudo o que vivi até hoje por ter tido a coragem de escolher essa área de atuação. Sou afortunada por tudo o que sou hoje. Mas, mais ainda, a Geografia me permite entender que isso tudo não se encerra aqui, e para cada desafio concretizado, existem outros duzentos mais. E é de onde estou que eu me lanço. Viva a Geografia. Parabéns geógrafos, professores de Geografia e todos os profissionais que têm, de algum modo, na Geografia a sua forma de inserção enquanto ser humano nesse mundo.‪#‎29deMaioÉdiaDxGeógrafx‬

.

Earthquake

.

Na mesma semana eu assisti ao documentário "Sal da Terra" e ao filme "Terremoto". O primeiro traz a a história do grande fotógrafo Sebastião Salgado que, durante a maior parte de sua vida, dedicou-se a registrar vários povos, conflitos, culturas, situações precárias de trabalho, migrações forçadas, a morte na sua pior forma, na sua perversidade e crueldade. Também fotografou a vida, a natureza, as diversas espécies de animais e plantas, e os povos na sua essência da relação de seres humanos com a floresta, com a própria vida. O segundo, sendo uma produção hollywoodiana, com todos os seus exageros, sua seletividade social, racial, étnica, com o emprego de toda a ideologia estadunidense em cima de uma possível catástrofe que vitimiza um país que, na realidade, sabemos que é um dos responsáveis por tanta miséria, exploração e sofrimento no terceiro mundo, no Oriente Médio, na América Latina, também não deixa de "mostrar" efeitos de uma catástrofe ou um "desastre natural". Coloco alguns termos entre aspas porque ambos os filmes me fizeram pensar sobre nosso atual modo de vida. Me fazem pensar sobre o quanto é contraditório esse modo de vida e que, mesmo que nos sensibilizemos com tais imagens, não há nada a ser feito a não ser mudar tudo. Com as chocantes denúncias de Sebastião Salgado, através de suas fotografias, de guerras, do quanto o sistema do Capital destrói a humanidade, eu chorei. Chorei quase que como uma criança, com direito a bico. Com as cenas da destruição gigantesca e continental por um terremoto seguido de tsunami na região da Califórnia e da costa oeste dos EUA, e todos os incríveis exageros que uma produção de Hollywood pode conter, eu ri. Eu ri o filme inteiro. Toda a população morreu, menos a super família tradicional, branca de classe média cujo patriarca se utilizou de toda a estrutura do Estado para salvar. Porém, ambos possuem um ponto de convergência... Estamos fadados à morte. Por mais pessimista que possa parecer o meu posicionamento, penso que a vida humana precisa de mudanças estruturais. Quando eu falava de "fazermos a revolução" para meus alunos, não me referia a revoluções como as do século 17 ou 18 ou 19 ou 20. Mas é necessária uma outra revolução... Estrutural... Do modo de consumo... Do modo de produção... Do modo de vida... Do modo de se reconhecer enquanto ser humano num mundo que a gente mesmo está implodindo/explodindo. Sequer me refiro a correntes de "ecocapitalismo" porque para mim, na minha leitura, essa também não é a saída porque reforça o capitalismo predatório, imperialista, excludente, opressor, assassino de povos e nações.... Eu não sei qual é a saída. Apenas entendo que é preciso resistir e prosseguir, e uma "revolução" é necessária.

.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sereia da beira do mar

.

Vim da beira do mar
Madeira já tinha ficado
Não, nunca se foi...
Madeira é o meu rio

Vim da beira do mar
Saí do Madeira
E busquei outros rios
Até mares

Passei pelo Tietê
Pelo Ipiranga
Pelo Pinheiros e Tamanduateí
Até no Vale do Anhangabaú
Quase me perdi

Mas lá, no mar, te encontrei
Subi e desci morros, florestas
Nadei e nadei
Contigo.

Encontrei rios
E aquele mar

Janeiro de tantos rios
Rios salobros
O sal na pele
Havia você

Vim da beira do mar
Da beira do Madeira
Desaguei no mar
Naquele Rio de tantos medos
De tantas milhas
De tantos sonhos

De lá saí
Vim daquele rio
Vim da beira do mar
Para encontrar o Guamá
E o Guajará

No Guamá
Meu sonho se refaz
Rio que vira mar
Mar que vira rio

Meu Madeira e meu mar
Hoje juntos
No meu Guamá e meu Guajará

Mesma água, mesma pedra
Mesmo sal,
Mesma fonte, mesma foz...
Dentro do meu coração

Rio-mar, me traz meu coração
Que naquele Rio ficou
E me faça re-mar
Me faça a-mar.

.

Alguma coisa sobre o tempo


.

Nos últimos tempos eu tenho refletido sobre muitas questões em relação às pessoas, e sobre mim. E, observando de modo mais crítico e de uma maneira mais sensível as situações do cotidiano, vem à minha mente um conselho que jamais eu devia ter desperdiçado, tanto dado pela minha mãe quanto pelo meu pai. Esse conselho me veio à mente, sobretudo depois de pensar muito sobre coisas que eu queria muito. Em certas vezes me deparei com situações em que eu precisava abrir mão do que era mais importante para mim naquele determinado momento. Em certas vezes eu quase abri mão de tudo o que era importante para ter aquilo que, na realidade, não era tão importante assim. Hoje, depois de tantas situações, cotidianas, inclusive, pude entender o conselho que meus pais sempre me deram. Eis o conselho: "Filha, não tenha pressa". Depois de tantas situações, entendo perfeitamente que meus pais, ao falarem isto sempre para mim, queriam que eu entendesse o real significado do tempo... O mundo gira e nossas vidas giram de modo igual. Passa o tempo e, de repente, estamos no mesmo lugar. Passa o tempo e vemos que aquilo para o que dávamos tanta importância hoje já não faz a menor diferença. Passa o tempo, e as pessoas passam por nossas vidas, como oportunidades são perdidas também. Então vem aquela velha e cruel pergunta: "E se...". E se eu tivesse ficado mais um pouco? E se eu não tivesse feito tal coisa? E se eu tivesse dito não ou se tivesse dito sim? E se eu seguisse aquele caminho? Sim eu devia ter ido por aquele caminho... E se eu tivesse tentado? Sinais de amadurecimento. Esses sinais percebemos quando as falas dos nossos pais, tão preocupados com a gente, começam a fazer todo o sentido. De fato, eles sempre têm razão... "Filha, não precisa ter pressa. Tudo ocorre naturalmente e ao seu tempo...". Eis que a vida, na marra, me mostra que pessoas para quem damos tanta importância por tanto tempo jamais realmente se importaram com a gente. Sinais de amadurecimento são quando a gente passa a não sentir mais o peito carregado de dor e de rancor, de mágoa... Quando a gente olha para trás e, no máximo, o que sentimos é pena. Sinais de amadurecimento são quando percebemos que o que realmente é importante para a gente está ali, nas nossas mãos, do nosso lado, não nos fere, não nos abandona, não nos esquece, não nos maltrata. É quando aquilo que o pai e mãe sempre disseram soa como o bem mais valioso que você pode levar para a sua vida, mais que qualquer diploma ou posição social. Apesar disso, não se pode dizer que os mesmos erros não serão cometidos em outros momentos... No entanto, não ter pressa e reconhecer-se como um grão de areia no universo infinito, dentro de um mundo que gira, gira, gira, e tudo o que acontece é somente o envelhecimento de nossas células, já é o primeiro passo para entender o tempo - o mais fantástico dos deuses. Por ter tido pressa, percebi que deixei caminhos para trás. E, hoje, compreendendo o que é não me apressar, eu vejo que esses caminhos existem ainda, eles estão no mesmo lugar. E hoje, tudo o que sinto é gratidão por todos os caminhos, coisas e pessoas que essa vida me trouxe. Mas gratidão maior que sinto é por finalmente poder ter começado a entender o que meus pais sempre me disseram e me dizem até hoje. Entender o que significa não ter pressa quer dizer compreender hoje que realmente certas situações para as quais dediquei tanto da minha vida, tanto do meu próprio ser, tanto do que há de mais bonito dentro de mim, simplesmente se foram, justamente porque não eram o que iria me fazer feliz. Significa compreender que é preciso amar de outra forma. Hoje eu entendo que entender o tempo é, sobretudo, entender o que é o amor. E entender o que é o amor, é, sobretudo, entender o que é a vida... E a vida é bem mais. É bem mais, definitivamente, muito mais.


.